sexta-feira, 14 de junho de 2019

Povos indígenas entre o litoral e o sertão nordestino

Ascendente do povo Payayá
Do litoral ao sertão nordestino existem famílias ascendentes dos povos originários. Entre o recôncavo baiano e o rio São Francisco a principal etnia predominante é a Payayá. O povo Payayá deixou ascendentes por toda região ainda existem relatos de sua presença no estado de Sergipe.

Os invasores portugueses ao chegarem na região tomaram as terras através das guerras e introduziram os povos africanos no cativeiro para trabalharem na criação de gado, no cultivo do fumo e outras plantações. A força de trabalho do povo Payayá também foi explorada pelos brancos. O registro do povo Payayá na região dos rios Paraguassú e Jacuype se encontra em vários municípios como exemplo do distrito Payayá, que recebe o nome da etnia de seu povo original, em Santo Estevão. No município de Nova Soure, nordeste baiano, também existe um distrito com o nome da etnia Payayá, o mesmo ocorre com uma comunidade do município de Saúde.

O povo Payayá sofreram vários ataques, assassinatos dos invasores brancos e dos pretos fugitivos do cativeiro para roubarem as terras. Observa-se que o branco usou de vários meios de dominação como matanças, uso dos homens em guerras, estupros, inclusive a mistura sexual para dominar os povos nativos. As misturas sexuais contribuiram com a desestruturação dos grupos. Desse modo, a própria introdução do preto serviu como arma de dominação do invasor branco para ambos tomarem as terras dos povos originários. Os ascendentes do povo Payayá vem retomando suas origens por vários municípios da Bahia. Segue mais detalhes sobre a invasão do sertão nordestino.

"A  “guerra  dos  bárbaros”

A  expansão  da  pecuária  sobre  as  terras  dos  índios  durante  o  séc. XVII,  na  região  do  semi-árido  nordestino,  acentuou  os  pequenos  conflitos  que  ocorriam  entre  colonos  e  índios  tidos  como  bárbaros:  Tarairiú, Janduí,  Ariú,  Icó,  Payayá,  Paiacu,  todos  identificados  como  “Tapuios”, habitantes  de  uma  região  que  compreendia  desde  o  centro-oeste  da Bahia até o Ceará (PomPa, 2003). Os  conflitos  com  os  índios  na  região  litorânea  do  Recôncavo  baiano existiam  desde  meados  do  séc.  XVI.  As  “guerras  do  recôncavo”  surgiram  com  a  construção  de  Salvador  em  1555,  cessando  com  as  expedições  punitivas  de  Mem  de  Sá  que  empregaram  milhares  de  índios  aldeados para combaterem as rebeliões dos Tupinambá (PuNtoNi, 2002).No  século  XVII,  inicialmente,  as  “guerras  do  recôncavo”  foram marcadas  pelas  invasões  dos  índios  “Tapuios”  a  vilas  e  a  engenhos, entre  1612  e  1621  (PuNtoNi,  2002).  Os  combates  contra  os  “Tapuios” envolveram  um  grande  contingente  de  índios  aldeados,  inclusive  antigos “Tapuios”  como  os  índios  Aimoré,  que  estavam  aliados  a  soldados  e  a bandeirantes  paulistas  (PomPa,  2003).  Durante  os  combates,  havia  deslocamentos  de  populações  em  conflito,  intensa  mobilidade  e  unificação de grupos em aldeamentos estimulada por jesuítas. Entre  1651  e  1656,  os  “Tapuios”  continuaram  atacando  as  vilas  do Recôncavo,  estabelecendo  a  partir  de  1657  três  momentos  reconhecidos pelos historiadores nessa guerra: a)  A Guerra de Orobó (1657-1659) b)  A Guerra do Aporá (1669-1673) c)  As guerras no São Francisco (1674-1679) (PuNtoNi, 2002) Na  guerra  do  Orobó,  os  índios  Payayá  já  aldeados,  localizados  então  no  norte  da  Bahia  e  atualmente  extintos,  foram  requisitados  pelos portugueses  para  combater  os  “Tapuios”  e  outros  índios  seus  inimigos, os  Topin,  hoje  extintos.  Tais  expedições  deviam  fazer  guerra  aos  “Tapuios”  “desbaratando-os  e  degolando-os  por  todos  os  meios  e  indústrias  que  no  ardil  militar  forem  possíveis”  (PuNtoNi,  2002:100).  Durante  os  conflitos,  grupos  locais  de  índios  Payayá  rebelaram-se  contra  os portugueses,  sendo  derrotados  e  “descidos”  para  aldeamentos  no  litoral (PuNtoNi, 2002). A  guerra  nos  campos  do  Aporá  foi  uma  “guerra  justa”  contra  os “Tapuios”  (índios  Topin  e  outros)  da  região  do  Aporá  (atual  Bahia). Essas  expedições  guerreiras,  contando  novamente  com  índios  Payayá, podiam  degolar  os  índios  que  resistissem  à  tropa,  e  escravizar  todos  os prisioneiros.  Essas  tropas  tinham  o  direito  de  repartir  as  terras  indígenas conquistadas (PuNtoNi, 2002). As  guerras  no  rio  São  Francisco  correspondem  à  revolta  inicial  de sete  aldeias  de  índios  Anaio  (“Tapuios”)  contra  os  “curraleiros”  (criadores  de  gado)  que  invadiram  suas  terras.  Os  portugueses  convocaram centenas  de  índios  Kariri,  flecheiros,  para  integrar  as  tropas  do  sertão. Centenas  de  índios,  já  rendidos  e  amarrados,  foram  trucidados  pelos portugueses (PomPa, 2003). Em  vários  momentos,  os  padres  missionários  (capuchinhos,  jesuítas) aliaram-se  aos  índios  no  decorrer  das  revoltas,  pois  freqüentemente  os índios  apenas  se  defendiam  de  ataques  de  moradores  (PuNtoNi,  2002; PomPa,  2003). A  Guerra  do  Açu,  principalmente  contra  os  índios  Tarairiú  (Janduí), resultou  das  mesmas  questões.  Nesse  confronto  revelou-se  a  complexidade  das  relações  que  os  índios  “Tapuios”  estabeleciam  com  os  regionais (vaqueiros, colonos etc.), desenvolvendo táticas de guerra singulares. Na  luta  contra  os  missionários  pelo  domínio  dos  índios  (escravização),  os  “curraleiros”  recorreram  às  bandeiras  paulistas  e  à  “guerra  justa”.  Enfrentaram  nesse  contexto  alguns  “principais”  indígenas,  como  o chefe  Canindé,  dos  índios  Janduí,  que  optaram  por  negociar  exaustivamente as condições da paz e da vassalagem exigida por Portugal. A “guerra  dos  bárbaros”  revelou  que  as  atitudes  indígenas  de  reação à  colonização  foram  complexas,  envolvendo  articulações  diversas  entre populações,  além  de  reelaborações  socioculturais,  como  a  que  permitiu a  associação  de  diversos  povos  contra  os  portugueses.  Da  mesma  forma, o  processo  de  territorialização  que  daí  surgiu  foi  decorrente  do  tratado de  paz  e  do  seu  descumprimento  pelos  colonizadores,  tornando  as  iniciativas  de  aldeamento  meramente  circunstanciais."

Fonte: OLIVEIRA e FREIRE, João Pacheco de, Carlos Augusto da Rocha.
A  Presença Indígena  na Formação do  Brasil. Ministério da Educação. Série vias dos saberes, n 02. LACED/Museu Nacional. 2006.
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