quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Cor da população brasileira é falsificada

Se o IBGE quer conhecer a cor do brasileiro deve trocar pardo por vermelho e retirar a palavra "indígena".

Quando se trata em cor de pele, no Brasil, chama a atenção para as opções vagas  sugeridas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE. Ou seja, as opções para tratarem da mistura étnica  são impostas e direcionadas com  o propósito de negar a presença indígena na população. Muitos também se reconhecem pardos ou pretos para serem beneficiados pelas políticas publicas e não por questões de origem étnica.

A pergunta do IBGE sobre a cor da pele é confusa, mistura cor com etnia (povo). Na pergunta oferece as sugestões de cor: branco, preto, amarelo, pardo e indígena. (Considera NEGRO as pessoas que se declaram pardas e pretas).

Veja que indígena não é cor mas etnia (povo). Se alguém se declara indígena, em seguida, pergunta a etnia (povo). Como muitas pessoas descendem de índio acabam confusas entre as opções de cor e o povo, preferem se reconhecer parda.

Para piorar se alguém se declara indígena em seguida pergunta o povo (etnia). Como muitos as vezes não sabem suas origens desistem da opção índio.

Se a definição da pessoa se dá através da autodeclaração, então, a pergunta razoável não deveria basear na etnia (aspectos culturais, históricos, físicos dentre outros) ao invés da cor? Sabe-se que uma cor é determinada pela concentração da tonalidade: como o critério de cor pode ser usado para estudar o homem?

O IBGE só permite que o miscigenado se declare pardo ou indígena. No entanto, as próprias instituições sociais, como as escolas, universidades e os meios de comunicação criam uma falsa imagem do índio na mente da população e na opinião publica. A qual, só considera índio quem vive na mata e nega a presença de índio nas cidades. 

Enquanto isso, a própria sociedade destrói as matas e roubam as terras dos índios. Também existe as compreensões distorcidas sobre o índio tratando como bárbaro (enquanto sofrem barbaridades dos civilizados), inferior, sem cultura, atrasado... A religião verdadeira é a cristã (católica e evangélica) ou até mesmo afro por se institucionalizar (templo) e hierarquizar (várias graduações de funções).

Embora, se sabe que desde o início das invasões dos territórios indígenas, o cristianismo, foi e continua sendo, usado como uma arma para dominar. O próprio Pero Vaz de Caminha nos relata isso na carta de encontro português: “[...] a Terra de Vera Cruz [...] homens da terra [...] A feição deles é serem [...] quase avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos [...] os seus cabelos são corredios [...] se os degredados, que aqui hão de ficar, aprenderem bem a sua fala e os entender, não duvido que eles, segundo a santa intenção de Vossa Alteza, se hão de fazer cristãos e crerem na nossa santa fé [...] Portanto Vossa Alteza, que tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da sua salvação [...] porém o melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente e esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza nela deve lançar [...] quanto mais disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, seja, o acrescentamento da nossa santa fé."


Mas toda essa falsa compreensão visa forçar que os povos indígenas neguem suas origens e misturem com os brancos e pretos para tomarem as terras, roubarem a madeira, as fontes de águas, minerais, plantas com valores medicinais e alimentícios... Nas últimas três décadas mais de mil índios foram mortos por fazendeiros, grileiros, oportunistas, madereiros... Tudo é proposital visando negar a presença do índio na população. Veja a estatística da população indígena na America Latina anos atrás.


Diga-se de passagem que a visibilidade do índio foi eliminada dos contextos sociais. Ou seja, não se observa o protagonismo indígenas em cargos públicos influentes. Só em dois momentos que aparecem: na década de 1980, quando o índio Juruna torna deputado federal e em 2018, com a eleição da índia Joênia Wapichana para deputada federal e da índia Chirley Pankará para deputada estadual em São Paulo.

Índia Joênia, deputada federal

Recente chama a atenção outro fator que tem atuado a serviço do domínio dos brancos e para apagar a genética e a presença indígena na população. Refiro tanto a negação indígena  na mistura com o branco quanto o reconhecimento sem critérios claros de  comunidades afro ou quilombola. Neste caso, não leva em conta a mistura do preto com o índio. Como uma comunidade com bisavó indígena pode ter sua origem afro? Tudo se justifica para criar um publico consumidor de serviço, eleitoral,... Essa negação do índio gera prejuízos graves para as populações indígenas e a constituição étnica, histórica e cultural da população.

Cabe ainda citar os termos vagos usados nos estudos da população que ajudam distorcer a realidade como pardo e negro. Ambos são usados pelas pesquisas governamentais mas não tem definições claras. 

Qual o sentido de pardo? Pardo é uma cor? É possível se identificar essa cor com clareza? De que trata o termo negro? Considera-se negro a soma dos pardos com os pretos, aumentando a confusão étnica ou racial. Destacam também termos populares como caboclo, sertanejo, caipira, dentre outros mas nunca se fala índio.

Tais expressões só pioram a distorção sobre o estudo da população e pela vagueza abre espaço para interpretações equivocadas como o racismo e o pre-conceito racial. Gerando falso conhecimento sobre a história, culturas das etnias que formam a população do Brasil, principalmente, quando se trata dos povos indígenas.  

Por exemplo, é comum se ouvir que na região Nordeste não existe mais índio. Afirmações dessa natureza além de desconhecerem a realidade tem um conteúdo intencional de negar esses povos para não colocar em ameaça os confortos dos dominantes como o domínio sobre a terra. E por outro lado, ignorar as origens do sofrimento de uma multidão mutilada pelo abismo da miséria.

Diante os relatos merece destaque dois pontos de vistas encontrados na internet. Seguem abaixo.

"Brasileiro não reconhece sua herança racial e cultural do índio porque, hoje, o reconhecimento de nossas raízes se dá de mão única. E que mão única é essa? Todo esse alvoroço em torno da causa negra, como se o Brasil fosse negro (ou só negro) e fosse oriundo apenas da miscigenação euro-africana.

Esse pessoal esquece que o Brasil não é e nunca foi homogêneo. Esquecem que enquanto na Bahia, na capital carioca e em quase toda Zona da Mata nordestina prevalece a miscigenação branco X negro, no Sul do país prevalece o branco descendente dos imigrantes. E esquecem ainda mais que o sertão nordestino foi forjado na mistura do português colonizador, do holandês invasor, do paulista bandeirante e das mulheres Cariris, Tarairiús e Tupis - quase sempre tomadas à força das tribos vencidas na conquista do sertão, e colocadas dentro de casa pra parir os filhos dos novos senhores.

Isso sem contar o Norte do país, de maciça herança nativa, e o Centro-Oeste.

Mas fazer o quê se somos (erroneamente) ensinados que o negro é o grande herói desse país e que o Brasil nasceu do ventre escravo africano?

O negro teve, sem dúvida, papel crucial no desenvolvimento da população de vastas regiões no país - e é justo que seja reconhecido nelas. Mas impor a realidade étnica e cultural de certas regiões do país às demais acabou por ofuscar o nativo americano como matriz cultural e racial do nosso povo." Natalycio Lucas

A formação e a pratica deformada de professores (clique aqui) e da mídia também ajuda falsear e ridicularizar o índio dentro da sociedade. A repercussão dessas ações torna desastrosa para a população indígena. Segundo uma reportagem do jornal A Tarde com a historiadora Ana Paula (clique aqui)

 "São séculos de políticas públicas para que os índios deixassem de existir 


Para além das escolas indígenas, você acredita que as escolas regulares ainda tratam a cultura indígena de modo folclórico?
Geralmente, as escolas só nos procuram em abril. É impressionante como os índios aparecem na história do Brasil quando Cabral chega aqui, em 1500, e depois eles desaparecem por um longo período. Você só vai ouvir falar um pouco de novo quando houve as comemorações pelos 500 anos do Brasil. Aconteceram aqueles confrontos, a pancadaria, a confusão. Então, eles ficaram um grande período da história com uma invisibilidade muito grande, como se não existissem. É um hiato histórico.  Isso faz com que as pessoas vejam os índios hoje como resíduos do passado. Eu não tenho mais paciência para responder quando dizem: ‘Ah, mas é índio e tá de celular?’. Respondo, né, porque é minha obrigação, mas os índios são povos do nosso tempo. Podem andar de avião, ter computador, usar internet, celular. 

Por que, na sua opinião, o movimento indígena não se fortaleceu no Brasil, a exemplo do que ocorreu com os movimentos negros, feministas e LGBTs, ao menos no que se refere à visibilidade? Por que não ganhou projeção?
Há um preconceito imenso com a questão indígena. Essa política anterior de Estado de querer que eles se integrassem, de querer que eles desaparecessem, de querer que eles não fossem índios mais, isso só mudou em 1988. É muito recente. A estimativa é  que nós temos um milhão de índios no Brasil. Acho que todo esse trabalho desde a época colonial, depois no Império, depois na República, de trabalhar para o desaparecimento deles teve esse reflexo. (...) Há todo um movimento indígena organizado. Mas aí a pessoa vê o índio protestando e vê o índio de celular e aí parece que já desmerece. Pelo amor de Deus, gente, os índios do Nordeste, tirando os Pataxós, não têm cabelo lisinho, não, olhinho puxado... Uns até têm, mas não são todos. Tem que entender o processo de como a história aconteceu. (...) Porque, do ponto de vista do ativismo europeu, eles só veem os índios da Amazônia, meio que como um complemento das campanhas ambientalistas, como guardiões da floresta, da biodiversidade, o que é verdade. Mas aqui também isso acontece, no semiárido, na caatinga, que são biomas mais discriminados, sem tanta visibilidade. Os índios também estão lá protegendo esses lugares. Nos estudos que fizemos com os Xokós, de Sergipe, é nítido como eles conseguiram recuperar a fauna e a flora num tempo relativamente curto, cerca de 30 anos. Na imagem aérea, você vê a área desmatada fora do território deles, e lá está tudo verdinho. Em pouco tempo já há essa regeneração. Quando fui visitar um dos limites das terras dos Xokós, fiquei impressionada. Tinha uma estrada separando e à esquerda era terra de fazendeiro. À direita, a terra indígena. A dos fazendeiros não tinha nada, era aquela poeira, só. E a dos índios era aquela caatinga bonita, sabe, aquela coisa exuberante.


A gente falava de folclore, e no Carnaval deste ano ativistas reivindicaram que as pessoas não se vestissem de índio, com o argumento de que índio não é fantasia.  O que você pensa disso?
Eu não sou contra. Os índios se posicionaram totalmente contra, falaram que não é fantasia, e tal. Mas eu acho muito massa os mexicanos estarem de cocar na Copa, torcendo. É uma forma de representar, meio estereotipada, mas é. Em algumas escolas, no Dia do Índio, as crianças estão lá fantasiadas gritando ‘uh, uh, uh’. Não tem nenhuma tribo no Brasil que faça isso. Isso é depreciativo. 

Há no Brasil uma mobilização grande por parte dos movimentos negros para que as pessoas se assumam negras e não pardas ou morenas. Em que medida, na sua opinião, essa discussão não acaba apagando ou diminuindo nossa herança indígena?
Tem isso, mas acho que muita gente não se assume indígena por preconceito. Há muitos relatos de índios que moram nas aldeias e preferem não se assumir. Essa identidade está ligada a histórias muito traumáticas. Quando trabalhava no Cedefes [Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva], em Minas, muitas pessoas me ligavam na época que surgiram as cotas dizendo assim: ‘Ah, minha vó foi pega no laço’. O que é a avó ter sido pega no laço? É estupro. ‘Ah, meu avô amansou ela’... Todas essas palavras que se usam... Então você fundar a sua identidade de uma história assim... São séculos de políticas públicas para que essas pessoas deixassem de existir."

Essa situação citada acima merece destaque para o caso emblemático de negação do povo Payayá. O qual, seus ancestrais viviam no centro do território baiano entre a Chapada Diamantina e o recôncavo baiano.

Por que no território do Jacuype/Umburanas (Antonio Cardoso) restou poucos parentes dos índios guerreiros Payayá na atualidade?

O povo Payayá sumiu da região porque era guerreiro. Nos primeiros séculos da invasão, o rei de Portugal e o Governo Geral da Bahia para tomarem posse do território e subirem os rios Jacuype e Paraguassu em direção ao sertão enfrentavam a muralha humana de guerreiros Payayás.

Então, o rei autorizou que o governador liberassem os invasores matarem todos os índios guerreiros, principalmente, os homens. Enquanto, os brancos e pretos misturassem com as índias para tomarem posse das terras. Ocorreram várias guerras contra os "bárbaros" (termo depreciativo usado pelos brancos na época) Tapuyas Payayá, falantes do Tupy.

As índias foram estupradas e aquelas que rebelassem seria mortas. Por isso que hoje na região não conservou aldeia. Ainda os parentes atuais dos Payayá são pela parte feminina. O deus principal do povo Payayá é Tupã.

Dentre os vários sentidos da tradução do termo "Payayá", do Tupy para o português, os remanescentes dos Payayá aceitam o sentido "filho do espírito". Segundo alguns pesquisadores após as invasões o grupo  dividiu entre apoiadores e inimigos dos brancos. Daí os brancos denominaram com nomes diferentes.

Mas os parentes dos guerreiros Payayá não abandonam suas  origens nem os ensinamentos de luta de seus ancestrais que tombaram heroicamente, quase foram extintos, na defesa de seu grupo e território. Os descendentes dos índios Payayá continuam vivendo em seu contexto de origem, na kaatinga do sertão baiano.

Dentre as familias descendentes dos índios da região, duas conhecidas ainda conservam alguns traços claros, a Soares do sítio kaatinga e a Bomfim do Travessão. Outras  contribuições dos índios ainda estão vivas como o artesanato de Oleiro, plantas medicinais (ervas), vocabulário, nomes dos rios da região, bioma kaatinga ...

A genética do povo Payayá, originário da região não sumiu, permanece misturada dentro de outras. Embora, alguns pretendem transformar todos em branco e preto.

As opções dada pelo IBGE cria uma realidade falsa sobre a formação étnica do Brasil.

É importante que fique claro que o propósito é chamar a atenção para o falso conhecimento gritante sobre a constituição da população brasileira. Isso gera consequências drásticas sobre as populações etnicas, em especial, a indígena.
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